Entrevista
«Prédio vazio no Centro é patrimônio parado»
Rafael Bittencourt, arquiteto · ProjetRIO, outubro de 2026
Dezenove retrofits em quinze anos
Rafael Bittencourt entrega prédio reformado desde 2011, quase sempre no Centro e na Zona Portuária do Rio. O último, o Edifício Caravelas, saiu de 71% de vacância para locação integral em 26 meses de obra, com o prédio funcionando. Conversamos no escritório dele, em Botafogo, sobre custo de retrofit, patrimônio e o que trava a conversão de escritório em moradia.
Entrevistado: Rafael BittencourtEscritório: Bittencourt Arquitetura e RetrofitRegistro: CAU RJ A61209-7Obras de retrofit: 19 entreguesOnde: Centro, Zona Portuária e BotafogoEntrevista: 24 de outubro de 2026, no escritório
A conversa em vídeo

VídeoEntrevista com Rafael BittencourtRetrofit sai mais barato que construir novo?
Em prédio de estrutura sadia, sim — e a diferença é grande. No Caravelas, o custo por metro quadrado ficou em torno de 45% do que seria uma obra nova equivalente, e isso já contando a troca completa de elétrica, hidráulica, incêndio e caixilho. O que muda a conta não é o preço do material: é o tempo. Obra nova no Centro significa demolição, bota-fora de milhares de toneladas, licença nova, fundação nova. Retrofit começa com a estrutura em pé.
A armadilha é entrar sem diagnóstico. Quem assina contrato de retrofit sem laudo de estrutura e sem inspeção de prumada vai descobrir o problema no meio da obra, quando o custo de corrigir já triplicou. Seis meses de laudo parecem lentos; são o trecho mais barato do cronograma.
O que trava a conversão de escritório em moradia no Centro?
Três coisas, nessa ordem. Primeiro, a prumada hidráulica: prédio de escritório concentra banheiro em um núcleo, e moradia precisa de água e esgoto distribuídos. Resolver isso é possível, mas custa e come área útil. Segundo, a iluminação e a ventilação naturais — laje profunda de 25 metros de vão não vira apartamento decente sem abrir poço, e abrir poço significa mexer na estrutura.
Terceiro, e o mais chato, é regulatório. O que a lei pede de vaga de garagem, de área de permanência e de afastamento foi escrito pensando em terreno vazio, não em prédio existente. Toda conversão depende de interpretação, e interpretação depende de quem está na mesa naquele ano. É por isso que esse mercado anda em ciclos.
Edifício Caravelas depois da recuperação da fachada
Quadra do Centro, com prédios dos anos 1950 e 1960
«Demolir prédio sadio no Centro é jogar dinheiro e carbono no lixo. A estrutura de 1958 já pagou o custo ambiental dela — reaproveitá-la é a decisão mais sustentável disponível, e ninguém precisa de selo para perceber isso.»
Rafael Bittencourt
Em números
45% do custo de obra nova equivalente, por m²26 meses de obra com o prédio ocupado38% de queda no consumo de área comum1.870 peças de pastilha recuperadas
Como se faz obra em prédio que continua funcionando?
Faseamento é projeto, não improviso. No Caravelas, nove inquilinos ficaram. A obra andou em duas lajes por vez, com elevador de serviço exclusivo do canteiro, bota-fora à noite com autorização e serviço ruidoso só no sábado. Cada etapa tinha vistoria conjunta com o condomínio antes de liberar.
A parte difícil não é técnica, é de convivência. A gente passou a fazer reunião mensal com os inquilinos, com cronograma na parede e telefone do engenheiro residente. Prédio em obra gera reclamação; prédio em obra sem informação gera processo.
Fachada protegida impede modernizar o prédio?
Impede trocar a cara dele, e isso é diferente. No Caravelas, a pastilha é elemento protegido e foi recuperada peça por peça, com molde feito sob medida para repor as que faltavam. O caixilho de ferro, que não era elemento protegido, virou alumínio com vidro duplo — e foi daí que vieram o conforto térmico e o acústico.
Quem trabalha com patrimônio aprende a ler o que está protegido de verdade. Quase sempre é menos do que o proprietário imagina, e o parecer sai mais rápido quando o projeto chega com o levantamento fotográfico, o histórico do edifício e a proposta de recuperação já detalhada.
Que conselho você dá para quem tem um prédio parado?
Gaste primeiro com diagnóstico. Laudo de estrutura, inspeção de prumada, levantamento de carga elétrica disponível, rota de fuga e acessibilidade. Isso custa uma fração do valor da obra e é o único jeito de saber se o prédio é um ativo ou um passivo.
E não comece pela estética. Prédio não fica vazio por causa do hall: fica vazio porque não entrega ar-condicionado, carga elétrica e AVCB. Resolvido isso, o inquilino aparece — e aí, sim, vale discutir o lobby.





Quer um diagnóstico do seu prédio?
O escritório faz o laudo antes de propor obra, com estimativa de custo por frente e o que a prefeitura aceita mudar.












