Entrevista

«Volto à casa seis meses depois. É aí que o projeto é julgado»

Luiza Sanches, designer de interiores · ProjetRIO, outubro de 2026

Dezesseis anos de interiores de morar

Luiza Sanches comanda um estúdio de interiores no Jardim Botânico e tem uma regra incomum no mercado: fotografa os projetos com a casa habitada, meses depois da entrega. Falamos sobre o que o uso revela, sobre o custo real do acabamento barato e sobre a pergunta que ela faz antes de desenhar qualquer coisa.

Entrevistada: Luiza SanchesEstúdio: Estúdio Luiza SanchesRegistro: ABD RJ 12884Projetos entregues (2023–2026): 24Onde: Rio de Janeiro, Região dos Lagos e Costa VerdeEntrevista: 9 de outubro de 2026, no estúdio

A conversa em vídeo

Entrevista com Luiza SanchesProjetRIOVídeoEntrevista com Luiza Sanches

Por que fotografar depois e não na entrega?

Porque casa vazia no dia da entrega mostra o meu gosto, não o resultado do projeto. Seis meses depois eu vejo onde o morador largou a bolsa, qual gaveta ele abre dez vezes por dia, se a cadeira que eu amei ficou encostada na parede. Metade do que eu sei hoje veio dessas visitas.

Também é desconfortável, e deveria ser. Já descobri marcenaria com porta empenando por falta de ventilação no fundo do armário e tecido de sofá que não aguentou cachorro. Quem não volta não aprende — repete.

Qual é a primeira pergunta que você faz num projeto novo?

“Me conte um dia da semana de vocês, da hora que acorda até a hora que dorme.” Parece conversa fiada e é a parte mais técnica do processo. É dali que sai o layout: quem cozinha, quem janta na frente da TV, quem trabalha em casa, quem acorda às cinco e não pode acender a luz do quarto.

Projeto de interiores que começa pela referência de imagem termina numa casa bonita que não serve. Começar pela rotina dá uma casa que às vezes é menos fotogênica e que funciona em agosto, quando ninguém está olhando.

Onde vale gastar mais e onde dá para economizar?

Vale gastar em três coisas: ferragem de marcenaria, iluminação e o que você toca todo dia — torneira, maçaneta, assento de cadeira. Ferragem ruim transforma um armário de quinze mil reais em um móvel que não fecha depois de dois anos. Luz mal resolvida estraga qualquer acabamento.

Dá para economizar em revestimento de parede, em peça de decoração e em quase tudo que é solto. Prefiro entregar uma casa com metade dos objetos e a marcenaria certa do que o contrário — objeto se compra depois, com calma; marcenaria refeita é obra de novo.

Estar em Ipanema, dois anos depois da entrega

Estar em Ipanema, dois anos depois da entrega

Cozinha integrada, com ilha de apoio para o dia a dia

Cozinha integrada, com ilha de apoio para o dia a dia

Em números

24 projetos entregues em três anos10 semanas de prazo médio de projeto6 meses até a visita de revisão3 entregas inseparáveis: layout, marcenaria e luz

«Acabamento barato não é mais barato: é mais cedo. Você paga de novo em três anos, com a casa habitada, o que é a forma mais caríssima de pagar qualquer coisa.»

Luiza Sanches

O que mais aparece de errado nas reformas que você recebe?

Iluminação resolvida por último. A pessoa escolhe piso, tinta, marcenaria, e a luz entra na véspera, com spot distribuído igualzinho no forro. Daí a casa fica com cara de loja. Luz é projeto: vai onde a atividade está, e em quantidade diferente para jantar, para ler e para limpar.

O segundo erro é tomada. Ninguém conta quantos aparelhos a família já tem hoje, então o apartamento recebe um projeto elétrico com metade do que precisa e ganha extensão atrás de todo móvel. É o item mais barato da obra se feito na hora certa e o mais caro depois do piso assentado.

Marcenaria sob medida vale a pena em apartamento pequeno?

Em apartamento pequeno é onde ela mais vale. Em 58 m², cada centímetro perdido entre o móvel de loja e a parede é espaço de circulação que você não tem. O que eu faço é concentrar: muita marcenaria em dois ou três pontos — entrada, cozinha, cabeceira — e o resto solto e leve.

O que não vale é marcenaria para tudo. Casa toda embutida fica dura, cara e impossível de mudar. Móvel solto é o que permite ao morador reorganizar a vida sem chamar arquiteto.

Que tendência você acha que vai envelhecer mal?

Tudo que é muito fechado em cor escura e textura rugosa no Rio. É bonito em foto de inverno europeu e vira mofo e calor aqui. E também a onda de automação total: casa que precisa de aplicativo para apagar a luz do banheiro vai irritar o morador no segundo mês.

O que envelhece bem é o que já envelheceu bem — madeira, pedra, linho, palhinha, branco quente. Não é conservadorismo: é material com histórico, fornecedor conhecido e reposição possível daqui a cinco anos.

Quer conversar sobre a sua casa?

A primeira conversa é sem custo e serve para alinhar escopo, prazo e faixa de investimento.